A RETOMADA DO CONSERVADORISMO
Ian
D’Oring Augusto
Kevin
Augusto Assis Athayde
Lourival
Miguel dos Anjos Junior
Lucas
Marcelo Ugarte
Luciano
dos Santos Gomes
William
das Dores
RESUMO:
O presente artigo tem objetivo de analisar as ideias conservadores que tem
ganhado espaço na atualidade, bem como as origens e o representantes dessas
ideias ao longo da história.
Palavras-Chave:
Ideias, História, Conservador, Atualidade.
INTRODUÇÃO
O
conservadorismo é um conjunto de ideias no qual seu seguidor acredita em uma
ordem natural e que a mesma vive em harmonia com o homem e com a natureza. O
conservador deseja manter essa ordem desfazer o que não é considerado natural,
isto é, anomalias.
Os
ideais conservadores se contrapõem aos progressistas que visam justamente a
mudança. As diferenças entre esses polos remontam desde a Revolução Francesa em
1789 com a divisão entre direita e esquerda. De lá pra cá muitas coisas
mudaram, mas essas nomenclaturas persistem.
Contudo
devido a intensificação do processo de globalização ficou cada vez mais difícil
enquadrar as correntes de pensamento nessa “reta numérica”. Isso fica em evidência
ao analisar o período da Segunda Guerra Mundial, onde a crise de 29 enfraqueceu
o capitalismo e golpeou uma Europa ainda arrasada pela Primeira Guerra Mundial.
Nesse contexto desesperador de miséria e
até mesmo fome somado ao ressentimento de alguns países com os resultados da
Primeira Guerra, o totalitarismo começa a se popularizar como a solução para os
problemas da Europa. A sua ascensão começa primeiramente na Itália sob a
liderança de Benito Mussolini, em seguida a Alemanha com o nazismo de Adolf Hitler.
Esses regimes totalitários possuíam um forte apelo ideológico, defendiam um
Estado forte e a submissão do indivíduo ao mesmo através de um nacionalismo
exacerbado. Esses movimentos recebiam um forte apoio da burguesia industrial,
pois um dos principais inimigos apontados pelo nazi-fascismo eram os movimentos
de esquerda.
Esses
regimes inspiraram e em alguns casos apoiaram outros movimentos de cunho
conservador tanto na Europa como é o caso dos regimes Salazarista e Franquista
e até mesmo na América Latina como é o caso dos Integralistas no Brasil através
da figura de Getúlio Vargas.
Tanto
esses regimes como o que se seguiu após eles contribuíram bastante para o que
podemos chamar de “conservadorismo contemporâneo”. A seguir vamos entender um
pouco mais sobre o que é conservadorismo e como o mesmo tem ascendido na
atualidade.
A PRUDÊNCIA DE KIRK
Um
dos autores mais influentes no meio conservador é pensador americano Russell
Kirk. Para esse pensador, o conservadorismo não é uma ideologia, pois não há um
livro definindo o que um conservador deve fazer ou como deve agir. No entanto,
em 1993, Kirk se propôs a listar em seu livro The Politics of Prudence,
dez princípios comuns ao conservadores, tomando por base a sociedade americana
daquela época. Dentre a lista de Kirk podemos destacar três destes princípios
que são:
[…] O conservador adere ao costume, às convenções e à continuidade.
É a antiga tradição que capacita as pessoas a
viverem juntas pacificamente. Os destruidores de costumes destroem mais do que
desejam ou sabem. […] A continuidade é o significado de vincular geração a
geração, importa tanto para a sociedade como para o indivíduo, sem isto a vida
é sem sentido. […][i]
[…] Conservadores são guiados por seu princípio
de prudência.
Para Kirk, o conservador analisa as implicações de
determinada ação a longo prazo e não age pelo ímpeto das vantagens passageiras
que tal ação pode render lhe render.[ii]
[…]
Conservadores são refreados por seu princípio de imperfectibilidade.
A
natureza humana sofre irremediavelmente de certas faltas graves, sabem os
conservadores. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser
criada. […] Tudo que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade
aceitavelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustamentos e
sofrimentos continuarão a espreitar. […][iii]
Os princípios listados por Kirk nos permite entender a natureza conservadora com mais detalhes. A noção de imperfectibilidade e o senso de prudência esclarecem a relutância de muitos conservadores em aderir mudanças, porém é um equívoco que acreditar que os mesmos são anversos a mudanças, para eles as mudanças devem ser bem analisadas e a partir do momento em que são consideradas como benéficas podem ser adotadas de forma gradual.
Como
já citamos, o conservadorismo apresenta algumas diferenças ao longo da história,
Kirk associa isso ao foto de o posicionamento conservador ser uma oposição as
ideologias e como as mesmas mudam conforme a época, o conservadorismo também
sofrerá algumas mudanças.
As
ideias de Kirk influenciaram vários pensadores e intelectuais. Mas vale a pena
conhecermos um pouco de uma das vertentes conservadoras que mais influenciaram
o mundo tanto no plano político como social que é o neoliberalismo
NEOLIBERALISMO, OS PRIMEIROS PASSOS
O
Neoliberalismo é um modelo econômico que propõe a ausência de intervenções do
Estado no mercado. Seus defensores apontam que o Estado é uma anomalia, por
isso o mesmo deve ser minimizado a fim de promover um livre mercado e estimular
o desenvolvimento econômico e social de um país. Esse modelo passou a ganhar
notoriedade entre as décadas de 70 e 80, quando a Crise do Petróleo que freou
as rédeas da economia mundial. O principal defensor deste modelo foi o
economista americano Milton Friedman. Este economista não apenas defendeu o
neoliberalismo, mas também o botou em execução.
Durante
a ditadura no Chile (1973 – 1990) sob o comando do General Augusto Pinochet,
Friedman agiu como um conselheiro de Pinochet na implantação do neoliberalismo.
Esse período, foi marcado por uma série de medidas que promoveram o desmonte do
Estado de bem-estar social no Chile, como exemplo podemos citar as várias
privatizações como é o caso da previdência social.
Devemos
ressaltar que a agenda neoliberal não foi adotada apenas no Chile. Em paralelo
outros dois países, vale destacar o Reino Unido e os Estados Unidos, o quais
foram precursores neste modelo econômico.
No
Reino Unido, a primeira-ministra Margaret Thatcher, foi a responsável pela
implantação do neoliberalismo. Ao assumir o cargo de premier em 1979, Thatcher
se deparou com uma economia marcada pela queda do crescimento e pelo aumento da
inflação, dessa forma Thatcher não hesitou em impor suas convicções a respeito
das políticas neoliberais. Centrada em reduzir o papel do Estado, seu governo
foi marcado por várias greves sindicais como decorrência da diminuição de poder
dos sindicatos trabalhistas, além disso Thatcher promoveu uma série de privatizações
e cortes nos gastos sociais.
Do
outro lado do Oceano Atlântico, o neoliberalismo começou a se enraizar nos
Estados Unidos a partir de 1981. Através do presidente Ronald Reagan, o
neoliberalismo foi implantado de forma semelhante a que vimos no Reino Unido, até
porquê, os líderes desses dois países compartilhavam ideias tão semelhantes que
se tornaram amigos próximos. Contudo Reagan, demonstrou uma contradição quanto
a cartilha neoliberal, pois enquanto promovia um corte de gastos no orçamento
do governo federal, aumentou consideravelmente os gastos militares do país a
fim de combater a influência da União Soviética. Tamanho foi o empenho de
Reagan em combater a União Soviética que os Estados Unidos até mesmo interviram
na Ilha de Granada, a qual estava sob o regime de um grupo comunista radical,
sob a alegação de que estudantes estadunidenses estavam correndo risco na ilha.
Esses
países apresentam características semelhantes quanto consequências do
neoliberalismo. Nos três países citados, a taxa de desemprego e as
desigualdades sociais aumentaram consideravelmente, no Chile por exemplo, ao
final do governo de Pinochet, cerca 38,6% da população se encontrava abaixo da
linha da pobreza. Outro ponto a ser notado é que essas políticas também não
trouxeram o tão esperado crescimento econômico para esses países.
A
partir da metade da década de 90, o neoliberalismo passou a ser abandonado por alguns
dos países que o aderiram, embora algumas das pautas do mesmo tenham
permanecido no âmbito econômico desses países. Dessa forma o conservadorismo
também perdeu força, ao menos no cenário econômico e político mundial, em
paralelo os movimentos progressistas ganhavam força.
O CONSERVADORISMO NA ATUALIDADE
Atualmente
estamos presenciando uma nova ascensão do pensamento conservador pelo mundo,
isso pode ser notado tanto na política como no contexto social. Não
coincidentemente, a economia mundial passa por uma nova crise. Esses
pensamentos conservadores também se relacionam a outras crises pelas quais
vários países tem passado. Vamos ver a seguir um pouco dessa ascensão
conservadora em alguns países.
Os
países da União Europeia tem enfrentado uma crise humanitária decorrente dos
conflitos no Oriente Médio, como reação a isso tem crescido movimentos ultra
direita extremamente xenofóbicos em muitos desses países. Esses grupos
geralmente apontam os imigrantes como uma ameaça no mercado de trabalho e também
de serem os culpados pela ascensão terrorista na Europa. Recentemente o premier
húngaro, Viktor Orbán, disse que será construída uma barreira na fronteira da
Hungria com a Sérvia a fim de impedir a entrada de refugiados.
Outro
exemplo da retomada conservadorismo é o Brasil. Esse país que vem enfrentando
uma crise política se tornou palco de uma disputa ideológica, desde 2013 uma
onda de inconformação mostrou as caras nesse país. Nesse contexto políticos
conservadores passaram a ganhar notoriedade entre a população, como é o caso do
deputado Jair Bolsonaro. Esse político é conhecido pelas suas declarações
polêmicas a favor da ditatura militar, o mesmo chegou a enaltecer um torturador
desse período em uma declaração. Bolsonaro também se diz a favor da “família
tradicional brasileira” e em muitas outras declarações deixa claro seu
posicionamento em relação as minorias “O
filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro e muda o comportamento
dele […]” (BOLSONARO, 2010) é um exemplo
delas. Bolsonaro, tem recebido o apoio de muitos conservadores do país até
mesmo jovens. Quanto a posicionamento desse candidato quanto assuntos
referentes a economia é bem contraditório, ele é tido por muitos como um
patriota, porém mostra-se simpatizante as medidas propostas pelo presidente
Michel Temer, como por exemplo a abertura do pré-sal a exploração estrangeira.
Por sinal Temer também é outro nome que representa o conservadorismo no país,
as medidas neoliberais tomadas pelo mesmo estão aos poucos desconstruindo o
Estado e aumentando agravando a crise no país.
Nos
Estados Unidos, a recente eleição de Donald Trump para presidente ilustra o
contexto conservador deste país. Durante sua campanha, a principal proposta de
Trump foi a construção de um muro na fronteira com o México a fim de barrar a
entrada de imigrantes ilegais, campanha essa que foi repleta de declarações
preconceituosas, em uma dessas declarações, Trump afirmou que O pais vizinho
[México] envia sua gente, mas não manda seu melhor (TRUMP, 2015). Em outra
declaração Trump afirmou que a juventude negra do país não têm espírito
(TRUMP 2015), essa declaração foi feita em meio as tensões raciais que tem se agravado nos Estado Unidos.
Como a maioria dos conservadores, Trump também é a favor do “casamento
tradicional”, embora, após as eleições o mesmo tenha dito não ter problemas com
o casamento gay. A vitória de Trump nessas eleições ilustra uma situação
alarmante desse país que é a onda de preconceito.
A
retomada conservadora é um fenômeno que não surpreende, na história momentos de
crise freiam o progresso e as pessoas geralmente se voltam para ações que
funcionaram no passado e que podem ser aplicadas no presente. Nos países
citados, algumas dessas situações já foram vividas no passado. A Europa já
passou por uma onda de xenofobia no passado com nazismo e agora a ultra direita
parece querer resgatar este momento bárbaro da história. No caso do Brasil o
neoliberalismo mostra suas garras novamente, pois esse país também já foi
laboratório de medidas neoliberais, as mesmas não trouxeram bons resultados
para o país e boa parte desses conservadores possui um saudosismo pelo período
da ditadura.
CONCLUSÃO
Levando
em conta os dados apresentados, podemos concluir que essa retomada conservadora
contesta os princípios característicos do conservadorismo no passado como é o
caso dos princípios listados por Kirk. É certo que o pensamento conservador
tende mudar com o tempo, porém o que temos presenciado é uma mudança radical
desses princípios, pois como poderíamos caracterizar seus conservadores como
Bolsonaro ou Trump como prudentes ou ao menos como dispostos a conciliar
tradição e continuidade? Ambos inspiram ódio logo podemos descartar o desejo e
criar uma sociedade com uma ordem razoável vindo desses representantes. O mesmo
vale para aqueles que os apoiam, pois se aferram a ideias ultrapassadas e que
já se mostraram ineficazes.
REFERÊNCIAS:
AGÊNCIA
EFE. Hungria vai construir muro na fronteira com a Sérvia para conter
imigração. Disponível em:<http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/40726/hungria+vai+construir+muro+na+fronteira+com+a+servia+para+conter+imigracao.shtml>.
Acesso em: 20 nov. 2016.
ARAÚJO,
Tibério. O Neoliberalismo Pós Regimes Militares Na América Latina. Disponível
em:<https://f5dahistoria.wordpress.com/2010/12/01/o-neoliberalismo-na-america-latina-2/>. Acesso
em: 18 nov. 2016.
BETONI,
Camila. Fascismo. Disponível
em: <http://www.infoescola.com/historia/fascismo/>. Acesso
em: 20 nov. 2016.
DIREITASJA.COM.BR.
Reagan. Disponível
em: <https://direitasja.com.br/biografias/r/ronald-reagan/>. Acesso
em:19 nov. 2016.
DIREITASJA.COM.BR. Thatcher. Disponível
em: <https://direitasja.com.br/biografias/t/margaret-thatcher/>. Acesso
em: 20 nov. 2016.
FELLET,
João. Por que Donald Trump é popular entre os conservadores nos EUA – e
fora deles. Disponível
em:<http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/12/151224_donald_trump_popularidade_jf_rb>. Acesso
em: 18 nov. 2016.
GHETTI,
Flávio. Os Dez Princípios Conservadores. Disponível em: <http://tradutoresdedireita.org/os-dez-principios-conservadores/>.
Acesso em: 20 nov. 2016.
HOPPE,
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em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1852>. Acesso
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ORTELLADO,
Pablo. A ascensão do conservadorismo no Brasil. Disponível
em:<http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/04/a-ascensao-do-conservadorismo-no-brasil.html>. Acesso
em: 18 nov. 2016.
VINCE,
Gabriel. Bolsonaro e o Conservadorismo que eu Rejeito. Disponível
em:<http://www.libertarianismo.org/index.php/artigos/bolsonaro-conservadorismo-rejeito/>. Acesso
em: 18 nov. 2016.
[i] KIRK, Russell. The politics
of prudence. Bryn Mawr, Penn.: Intercollegiate Studies Institute, 1993.
[ii] KIRK, Russell. The politics
of prudence. Bryn Mawr, Penn.: Intercollegiate Studies Institute, 1993.
[iii] KIRK, Russell. The politics
of prudence. Bryn Mawr, Penn.: Intercollegiate Studies Institute, 1993.
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